O elegante aventureiro

 

   Durante viagem de trem pelo norte de Minas, Paixão, elegante aventureiro, cai nos braços de Salinas, a passageira ruiva e magnífica. Os dois acabam se amando na cabine-leito. De manhã, ele acorda e verifica que ninguém está no carro. Salinas foi embora sem dizer pra onde ia.                  

   Em Montes Claros, na festa em volta da piscina da fazenda de Tomaz, o americano, Paixão fica indiferente às beldades que evoluem desnudas pela água e mal ouve o discurso do anfitrião em louvor ao desenvolvimento do país. A passageira do trem cada vez mais o ofusca. De repente, ele vislumbra seu vulto e o persegue. Desconfia do americano. Fixa o olhar em uma a uma das mulheres – mas nenhuma é Salinas.

Tamara Taxman

      No pôquer do dia seguinte, o lance é bem alto e o raríssimo straight é pouco. Tomaz apresenta o royal, jogo máximo. Paixão não se dá por vencido e responde com o jeito (inventando o cri-cri, sabidice sabichona a seu ver superior).

O americano tira o trunfo da manga equivalente ao soco infalível: munido de royalty, faz o brasileiro beijar a lona gritando o nome de Salinas.

      Carnaval na zona. Chegam ao quarto o americano e a morena da piscina, que ensina a uma loura noviça alguns segredos de alcova. Tomaz ouve o relato, se entusiasma e pressente o arranjo lascivo. Paixão aparece à porta (refeito do golpe sofrido) e é saudado por todos. Visto de forma diversa, volta bem paranóico ao se imaginar excluído de relações sectárias que supõe haver entre os três. Tomaz lhe diz “sinto muito” e se afasta da estória.

      Já num pequeno burgo vizinho, Paixão sonha pela última vez com Salinas, inatingível, dançando num grupo de bailarinas resplandecentes. Levanta-se, embriaga-se e termina dormindo na beira do rio. Evangelina, adolescente sedutora, faz ioga ali perto completamente nua. Paixão acorda, enxerga a figura belíssima porém volta para o chão calculando que ainda sonhava. A visão se torna real ao jogar areia em seus olhos, pedindo fogo para o cigarro.

      O aventureiro tenta seduzi-la cantando música pornográfica. Ela acaricia o próprio corpo e o enlouquece de vez. Ele passa a tirar o que veste e se localiza despido na rua, primeiro, ridicularizado e, a seguir, perseguido. Grita e mergulha na noite entre pedras, onde assa o corpo de Evangelina e saboreia um de seus pedaços.

      De volta a Montes Claros vai ao cabaret de Avana, a dançarina espanhola que leva a platéia ao delírio. Paixão flerta com ela, deixando seu amante enfurecido. No corredor do camarim, depois do espetáculo, ouve a briga de separação do casal. O amante vai embora, ele entra no recinto e deposita uma flor entre os seios do seu objetivo. Os dois se beijam e ela propõe uma fuga para Grão Mogol, onde tem um paraíso, uma casa de campo.

      Episodicamente, Paixão revela por Avana um desinteresse fugaz mas que não compromete o ardor com que responde aos seus cantos de prazer nos exercícios carnais. Desde os primeiros instantes, Maruja, a empregada da casa, o observa de soslaio. A cantora nota o lance. O aventureiro se vê na berlinda e sepulta Salinas em versos lhe enviando a derradeira mensagem: nem a lira que deriva da espanhola satisfeita lhe prolongará a desdita. Antecipa o amor por Maruja, fecundado de laços que o ligam ao povo sofrido e seus valores mais puros, ou à sua ingenuidade. Avana ameaça a concorrente mas reconsidera e, desprendida, magnânima, lhes deseja felicidade.

      O novo par sai a cavalo à procura de um leito. Numa ruína da estrada, depois do amor carinhoso, surge uma onça, que salta sobre os amantes. Numa fração de segundo, Paixão puxa o revólver e atira. A onça cai morta. O herói levanta a máscara da fera, que se identifica: era a morena da zona a mando de Tomaz. O espectro do americano, eliminada a lacaia, sai da cartola num salto e leva também um tiro, que o atravessa mas não o fere e nem mata. Na defesa do amor pelo povo o aventureiro termina perplexo. Retirando-se do palco, acelera o seu desvario ou observa a realidade:

      No largo da estação, Paixão se enxerga levando mulher e filha ao trem que sairá para o hospício. Não vê que as loucas não partem pela própria vontade. Suspeita que o deixem sozinho para ficar castigado.

      De repente, muda de rumo e canta a alucinação que elas cantavam. E todos passam a gostar muito dele e vão levá-lo pra casa. O povo, com ele, ia até aonde ia aquela cantiga.