Uma atitude lúdica

- O Cabaret, de mineiro não tem só o título. Tem toda uma alucinação sexual dentro do filme e outras temáticas também específicas de Minas. Já o Matraga, de mineiro não tem nada, é uma espécie de epopeia paulista. Se tivesse sido filmado no interior de São Paulo, permaneceria o mesmo. O tipo de sensibilidade dele não me diz nada absolutamente daqui, da mesma forma que o Grande Sertão, dos irmãos Santos Pereira. Mas você pode encontrar uma certa mineiridade, o imaginário de Minas (se é que ele existe)em obras feitas fora do estado, através da permanência de determinados traços culturais em pessoas que se radicaram ou até nasceram no Rio.

 

- Eu gosto muito de Perdida, não que seja a obra mais interessante de Carlos Prates, mas nunca me passou pela cabeça que pudesse haver momentos tediosos no filme, com finalidade etnográfica ou descritiva. Tudo está tão bem entrosado na composição da personagem, nas idas e vindas dessa mulher que tenta fazer a vida dela... Tinha gente contra mas... E foi muito discutido Perdida. Mas em nenhum momento dessa discussão eu me lembro que se tenha dito que houvesse quebras de ritmo com finalidades descritivas.

 

- Eu não conheço bem o próprio Carlos mas acho que ele passou por várias fases e que é uma pessoa que trabalhou muito as suas raízes mineiras. Se você passa do Crioulo Doido, que é um momento de expressão lúdica, para Perdida, que é uma aproximação maior com o mercado, vai encontrar uma descrição mais precisa da ação, dos ambientes, do meio etc, e se continua até o Cabaret, passa a vê-lo agora de volta a uma atitude lúdica, mas já com as raízes definitivamente perdidas. Ele sabe que nunca mais vai encontrá-las e que não adianta chorar, é melhor fazer a festa em cima da perda.

(Eu acho até importante você articular esse lado mais etnográfico, de descrição, o que depois vai acontecer no Cabaret Mineiro eu acho que fica muito interessante. Realmente há toda uma reflexão sobre raízes culturais, religião...)

 

- Você não tem que vê-lo enquanto filme mineiro, tem que vê-lo enquanto filme, nem enquanto filme brasileiro. Aliás, nós estamos falando mas vocês conhecem o Cabaret Mineiro? É belíssimo. Para mim é do nível, do valor, do interesse do Anjo Nasceu, do Bressane, do Terra em Transe, realmente um dos grandes momentos do cinema dos últimos 30 anos. É, são estes os grandes momentos de ruptura, em que a coisa se realiza plenamente, não estou interessado em fazer uma hierarquia. No Cabaret você sente que tudo se realiza, explode, e ele tem um projeto visual, um projeto rítmico muito próprio. Não tem história, podia a qualquer momento cair, podia se desarticular. Mas não, ele vai, se renova a cada instante, a cada instante você tem elementos que vão enriquecer o plano e que você não esperava, uma originalidade de enquadramento, é belíssimo, é belíssimo...

 

Trechos da entrevista de Jean Claude Bernardet no Hotel Normandy, Belo Horizonte, 1992