Um instante na História

Merten – Gostaria de conversar pessoalmente, mas respeito o teu desejo de viver reservado e não tirar fotografias. Se não for impertinência, por que a necessidade de ficar à margem?

Prates – Quando, na infância, descobri que o cinema não era feito apenas pelos atores que eu via no Cine São Luiz, tomei a decisão de participar do processo e me localizar do outro lado, bem atrás da câmera. Apesar disso, cedi a impulsos narcísicos e ocupei na tela alguns espaços, inclusive cantando e dançando. Já fui guerrilheiro de direita, assassino de poetas, mas a minha cena antológica está em Aleluia, numa boate de BH, cravando os olhos na provocadora Helena Ignez – em composição do cineasta Schubert que remete imediatamente a Greed. A partir do Cabaret, para descongestionar a minha agenda, passei ao músico Tavinho Moura a tarefa de ser o meu Hitchcock, de me representar no écran, deixando realmente de aparecer nas telas e posar para fotografias.

Merten – Tu já fizeste filmes mais narrativos, como Cabaret e Noites. O recorte bem “pessoal”, até autobiográfico, de Castelar e Nelson Dantas, tem a ver com esse recolhimento?

Prates – A pergunta me confunde um pouco pois o Cabaret não era considerado “narrativo”, apesar da minha discordância. Todos os meus filmes são “pessoais”, se o compreendo. Porque relatam fatos que presenciei, às vezes protagonizando, ou porque adaptam um romance ambientado na região onde nasci, ou então derivam de histórias que ouvi do grande mestre Antônio Rodrigues, jogando pôquer. 

Merten – Em Gramado, quando Castelar ganhou o prêmio de Melhor Filme, certa crítica te acusou de pecar contra o Mercado ao cometer a falta grave do “hermetismo”.

Prates – A avaliação de “hermético” é resultado da submissão a modelos consagrados, quero frisar, poucas vezes bem sucedida. É evidente que um documentário tem audiência restrita e que, de maneira episódica, surgem filmes brasileiros de sucesso no segmento do cinema de consumo. Mas você já avaliou quanto se gasta neste país de dinheiro público em projetos “comerciais” de fracasso retumbante? Não seria melhor que em vez dessa verdadeira caça às bruxas a um cinema supostamente “hermético”, de baixo custo e inegável importância cultural, o olhar da crítica se voltasse para um cinema “comercial” caríssimo e ineficiente?

Esse apodo desonesto foi dirigido também ao Cabaret Mineiro, que há alguns anos se viu literalmente barrado pela distribuidora do governo e, quando entrou no Mercado, conseguiu 10.000 espectadores apenas na 1ª semana numa sala de São Paulo e levou ao Metrópole mais de 30.000 belorizontinos. O mesmo aconteceu com Noites do Sertão, que mofou nas prateleiras por longos meses e terminou obtendo a 3ª média de espectadores por cópia, num ano de colheita razoável da Embrafilme. Ambos foram acusados no 1º instante por nossa infatigável “burritzia” de “herméticos”, indecifráveis e outras sandices.

Merten – Castelar e Nelson Dantas é um filme geracional, de um autor que se debruça sobre sua geração para resgatar o cinema realizado em Minas, nos anos dos governos militares, por Joaquim Pedro, Andrea Tonacci, Alberto Graça, Schubert Magalhães e, digamos, Castelar Prates. Até que ponto todos eles estavam integrados ou formavam um movimento?

Prates - Alberto é bem mais novo que Maurício Gomes Leite e deve a ele alguma coisa. Basta ver A Vida Provisória e Memórias do Medo, poemas políticos de dois legítimos franco-sertanejos enlouquecidos por Godard desde Acossado. Quando ele encomendou de Paris seu 1º figurino, Maurício já andava por Copa de terno e gravata, sob o sol escaldante, com “Ulisses” de Joyce debaixo do braço. Há uma diferença.

      Eu e Joaquim somos Prates, parentes distantes. Trabalhei com ele, embora nosso cinema seja mais distante ainda, ao contrário do que se imagina. Joaquim tem compromissos com a cultura nacional bem consolidados. Sou seu admirador fervoroso, mas o trabalho que realizo é menos compromissado. Eu o levei para ver Johnny Guitar numa reprise do Alaska. Na saída, ele veio me falar de Terra em Transe. Ficou falando sozinho, rapidamente fui tomar sangria no El Faro e repassar as imagens do fantástico reencontro de Joan Crawford com Starling Hayden enquanto elas se achavam bem vivas em minha memória.

      O contraste entre o Schubert e Andrea Tonacci está exposto em Castelar de forma bem gritante. Ele evidencia que jamais se esboçou um movimento estético entre nós, havia apenas alguns laços de amizade.

Merten – Tu chamas o Maurício de franco-sertanejo, não consideras o cinema dele, mais urbano, contraditório em relação às Gerais míticas, das veredas do grande sertão. Eu o admirava muito, mais até por suas críticas, apesar do meu apreço por A Vida Provisória. Não sei se é bem a palavra, mas havia nele certa nostalgia pelo cinema europeu de Godard, tu disseste alucinação. Ele era então um de vocês?

Prates – Na infância, embora um pouco mais velho, Maurício esperava comigo pela sirene do Cine São Luiz, em Montes Claros. Mais tarde, já em Belo Horizonte, ele me garantia que o cinema era a arte do instante. Cyro Siqueira, no Estado de Minas, replicava que era a arte da História. Aquela situação me incomodava, eu tinha concluído que o cinema era a arte do instante na História, mas receava que ao pronunciar meu veredicto ele fosse interpretado como acomodação pessedista bem ao estilo dos políticos da minha família. Maurício era tão dominado pela vida intelectual que foi a um congresso de jornalistas em Viena, leu “Lolita” pelo caminho e trouxe para casar a filha adolescente do redator-chefe de um jornal austríaco. Todo ano passava férias em Paris, se hospedava num hotel em frente ao apartamento de Sartre só para olhar o filósofo escovar o tapete à janela.

Merten – Qual o critério usado em teu documentário na escolha dos cineastas Joaquim Pedro, Andrea Tonacci, Alberto Graça e Schubert Magalhães?

Prates – Escolhi também Roberto Santos, David Neves e Maurício Gomes Leite, mas o produtor do 1º não me cedeu as imagens de A Hora e Vez de Augusto Matraga nem os herdeiros de David e Maurício as de Memória de Helena e A Vida Provisória. Além dos cineastas enfocados alguns outros filmaram em Minas no período. Para montar o meu relato, contudo, estabeleci a exigência de selecionar apenas os filmes que de alguma forma acompanhei de perto, na preparação, filmagem ou lançamento. Só desrespeitei as regras com Minas Texas, de Charles Stone, 1989 (depois dos governos militares), e O Canto da Saudade, 1952 (antes), que aparecem mais ou menos como prólogo ou epílogo.

Merten – Essa questão da memória, que está no centro do filme, me pareceu mais autocrítica do que saudosista.

Prates – Castelar pode estar dizendo, através de Humberto Mauro, que os esforços daqueles rapazes com seus poemas políticos, suas formulações anárquicas, sua solidariedade aos desvalidos, desaguaram no desencanto de uma corrupção tão enraizada quanto inextinguível. Mas pode estar dizendo quase o contrário, ao perenizar imagens e idéias que só um povo virtuoso consegue produzir, resultantes da habilidade dos artistas relacionados com aquelas máquinas, que fixaram uma utopia em cada fotograma imprimido.  

Merten – Sendo Minas, enfim, um estado tradicionalmente tão “recatado”, de onde vem essa vitalidade erótica que o teu cinema sempre transmite?

Prates – Recatado? Não se iluda. De onde vem o erotismo? Da roceira que trazia um feixe de lenha na cabeça e algum balanço nas nádegas; do perfume francês das cariocas que passavam férias na cidade; do hálito da professora que me acariciava quando eu caía; do reboliço incessante das mocinhas e mocetonas de Montes Claros, Salinas e Coração de Jesus; dos maiôs da Praça de Esportes; de Françoise Arnoul; da cena de Joaquim Costa vendo passar com outro homem, num conversível que lhe deu de presente, uma bailarina do Cassino da Urca; dos lábios carnudos da acordeonista do Instituto Granbery; do cheiro de verbena da carruagem da Condessa de Gouvarinho; das raparigas da zona, que acabavam se tornando minhas amigas. E mesmo das ocorrências amorosas nas equipes, que sopravam uma brisa de trás para a frente das câmeras a partir do 1º filme.

 

(Trechos em O Estado de São Paulo – 09/09/2008)