À flor da pupila

      Acabo de sair de uma sessão especial de Cabaret Mineiro. Encontro o amigo. Como sempre, vai tonto pela rua. O amigo me pergunta assombrado: o filme é realmente um marco no cinema brasileiro? Olho o amigo, olho a rua, penso o filme, o cinema, o cinema brasileiro e, quem sabe, o Brasil.

      Primeiro, estou em Minas. Aquele estado de ânimo ou de sono, em que o tempo se converte em muro, solzinho encostado no muro.

      Segundo, estou em Minas. E o tempo vira desejo, viração, transtorno, cinema, trem. E arranha rápido vermelho voraz as serras com preguiça em peles de zebus em latifúndios e mulheres de zona.

      Cabaret Mineiro, digo ao amigo, é a mineiridade, sim, mas numa nova dimensão. Não tem aquela pieguice tão cultivada por alguns. Porque Carlos Alberto Prates Correia, o diretor, vem da década de 60 e avança nos 80. Não é retrógrado. Ver Pierrot le fou em Belo Horizonte. O filme é novíssimo, e ao mesmo tempo nos dá uma sensação de intimidade que só as coisas há longo tempo conosco dão.

      Minas vira sonho. Sonho Mineiro. Esse prazer de beijar. Escorrer a língua macia, mole, em carnes e serras. A imagem lambe a tela. A boca, dentadura, fala sem sotaques, sem dentes perfeitos, sem dentes estragados. A dentadura arranha a rapadura. Doce, Minas vira magia, porque já é mistérios gerais, sem muitas consoantes que provocariam um sibilo gelado, nórdico. Uai.

      Esta teia. Esta costura de serras. Estradas enviesadas de tudo. Perder um caminho e outros caminhos, perder o caminho dos bondes paralíticos e dos carros de boi sem boi de algum cinema brasileiro e, sem pegar o jato definitivo, criar a trama possível, ou o fim de todas as tramas possíveis de um trem-cinema nestas terras modernas e mineiras, atemporais e imóveis, eternas e efêmeras, aléns e aqui. O limite das serras, todas as terras sem limite. A intuição mauriana não é maior que a sofisticação de um Mário Peixoto? E a síntese dos dois?

      O amigo me olha. O transtorno do amigo. Sua surpresa. A dúvida do amigo. Reconto para o amigo algumas histórias.

      Uma de Breton: “O que é mais admirável no fantástico é que ele não existe, tudo é real”. Outra, de Oswald de Andrade: “A alegria é a prova dos nove”.

      O amigo sabia que eu ia citar um dos dois. Como poderia ter citado Artaud, Brecht, Godard. Porque há uma ideia que é fazer o óbvio, e outra que é fazer o novo. E esta é muito difícil, amigo.

      É possível que um filme mineiro seja tão sarcástico, tão corajoso? O cinema tem sido acanhado, tímido, quem sabe. O amigo me recorda: tem a indústria, o imperialismo, a desinformação. Pois é. Como nós, eu e o amigo, não temos muitas respostas, nem muitas perguntas.

      Quantos são os que jogam? Quem corre o risco? Quantos podem correr o risco?

 

      Paixão é o nome do personagem central do Cabaret Mineiro. O desejo é próximo do receio. A paixão, do medo. Tudo fica mais mineiro assim. Paixão é jogador de pôquer. E Cabaret Mineiro? É um novo lance – “Cri-Cri” – no cinema brasileiro.

      Compatibilizar é arte da terra. Intuição e erudição. Acadêmico e moderno. Agressão e sugestão. Harmonia e fragmentação. Ironia e autocrítica. Decoro e sacanagem. Minas e o Brasil. Eu e o amigo.

      E então – o amigo insiste – Cabaret Mineiro é um marco no nosso cinema?

      Acho tola a pergunta do amigo, mesmo porque essas coisas de marco têm algo de pedra, posse, fronteira, bandeiras, entradas.

      Tento dizer ao amigo as preocupações à toa que me ocorrem após ver o filme.

      Cabaret Mineiro reúne toda a potencialidade do cinema de fazer um filme criativo, irônico, moderno, pessoal e geral. Preocupações de vida, de cinema, de Minas e de Brasil.

      Da vanguarda europeia a Guimarães Rosa. Pytx. A nossa trajetória, a nossa idade, é muito inventiva, reconstituída também, também desconstruída. Pedra sabão, em nome que cada um assinala uma data e um nome. O barroco tardio. Aleijadinho que nunca viu o mar e inventou uma baleia nova na Igreja de São Francisco de Assis. Montes Claros, perto de Grão Mogol, perto da Bahia, perto do mundo. Rosa. A terceira margem. A margem do tempo. O fim dos tempos. O fim de um tempo. Os pactos. As alianças misteriosas. Riobaldo.

      Se Paixão faz um pacto de carne (por sua conta) e de desejo (por consequência) com Salinas, Carlos Alberto faz um outro, de criação, com o Tinhoso. O jogo, o lúdico mineiro. O prazer, contido e dissimulado, forte e frágil, evidente e sutil. Os anjinhos barrocos, levemente sarcásticos, quase demoníacos.

      O amigo se comove. Quer mais impressões.

      Cabaret Mineiro é o prazer à flor da pupila. Tudo são artimanhas para encantar e incomodar a retina e o labirinto, em geral acostumados às mesmices. Um filme que pode ser rural-musical-chanchada-vanguarda-folclórico. Minas numa nova dimensão, como eu disse, que poucos mineiros arriscam, a do princípio do desejo, ou da Paixão.

      É um dos filmes mais sinestésicos já feitos no País. Eu quero dizer, não apenas para ser assistido, mas também para ser tocado, respirado, suado, cheirado. Quanto à desconstrução, não eisensteiniana, é a “associação livre”, se quer. De Buñuel, e claro, à bout de souffle.  Com tudo que um grande sertão pode ter de Joyce, ou mais: com tudo que um Faulkner pode ter de Rosa. Ou mais ainda: com tudo que os “causos” podem ter de fantástico, imaginário. Paixão-lobisomem. Paixão-pelo-mal, pelo pecado, pela trapaça. Paixão por Paixão. Mas Paixão sem catarse, Paixão sem mimesis.

 

                                                               Alcino Leite Neto

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