Debate da TVE - 2003

Geraldinho Carneiro (poeta) - Minas Texas me encanta desde o título, que parodia o filme do Wim Wenders, tido por alguns diretores brasileiros como rendição à lógica de Hollywood, o que não é verdade. Paris, Texas é um filme primoroso. Mesmo não tendo se arrematado com uma linguagem narrativa, sua paródia tem elementos muito curiosos, uma sintaxe curiosíssima, divertida, inteligente, que me agradou bastante.

Hernani Heffner (pesquisador) - Me encanta uma série de coisas no filme, as relações que ele tece entre um certo cinema americano de prazer, de alegria, de bem-estar...

Vera Barroso (apresentadora) - Aquelas cenas em preto-e-branco são de filmes conhecidos?

Hernani Heffner - Algumas sim, outras nem tanto, algumas eu não conheço, mas isso importa pouco, o que importa é o universo em que você se deleita e sonha, quando é criança, naquela sala escura. Minas Texas está ligado para mim à idéia de sonho. Estilhaços de memória, mas contados à maneira de um sonho, que é ao mesmo tempo algo que nos acalenta, nos alivia e também fala das nossas preocupações, das nossas relações com o mundo lá fora. Como pessoa e como cineasta o Prates teve que lidar com o referencial maior, o cinema americano, ao longo da carreira. Com o cinema dominante, que ele parodia mas também homenageia.

Geraldinho Carneiro - É inegável que ele debocha de clichês do cinema de ação. O filme tem três cenas que são emblemáticas: quando o herói leva 50 tiros, sangra, sangra e não morre. A do grupo que encontra água e toma banho depois de atravessar o deserto. E a extração da bala, que é também divertidíssima. Os heróis do cinema americano sempre reagem estoicamente, são incapazes de lançar um gemido e o Zé Dumont dá um grito pavoroso. //

 

Hernani Heffner - A autobiografia do Prates é o veio narrativo, que ele alinhava com uma história do cinema e uma história do país. Eu gosto muito do duelo, não só pela forma como ele encena, mas pelo fato de lá se defrontarem o General Custer (norte-americano) e o Zé Dumont, brasileiro, tímido, medroso. Ali se transcende sua própria formação filmográfica, se descobre o indivíduo.

Geraldinho Carneiro - Eu acho que esse jogo de linguagem acaba sendo um modo curioso e particular de tematizar a guerra da cultura periférica em relação à cultura central. Isso me parece muito bem resolvido. Por outro lado, mais que o jogo metalingüístico, intertextual, digamos assim, o filme tem um despudor fabuloso. De maneira geral, o cinema brasileiro, quando lida com a sexualidade, ou é caretinha, bem arrumadinho, ou então pervertidozinho estilo anos 70. //

 

Hernani Heffner - Para mim, Minas Texas é importante não só na carreira do Prates. Mas na história do cinema brasileiro, porque revela uma percepção aguçada de uma época. Veio o Collor e fechou a Embrafilme, que ia ser sua distribuidora. Acabou a legislação, o cinema brasileiro se desmontou e de certa forma isso está no filme. Não só ele não foi lançado comercialmente como antecipa que aquele ciclo estava acabando. Tem um momento que eu acho brilhante, o Prates parece dizer: infelizmente, eu não vivi a vida que poderia ter vivido. É quando vêm os pára-quedistas e passa um avião “militar”. Aí ele faz uma brevíssima alusão a todo o período de sua vida adulta, ocorrida na ditadura. E o filme encerra este ciclo. Toda uma proposta de cinema, toda uma forma...

Vera Barroso - Ele tem uma narrativa que realmente o cinema brasileiro abandonou...

Hernani Heffner - Não sei se abandonou. Ela já era incomum no cinema brasileiro, que é um cinema mais realista. E esse é um filme de vários níveis de construção...Mesmo que não tenha um conhecimento tão particular, até mesmo das coisas mais pessoais da vida do Prates, ele permite fazer relações. Você acerta se afirma que as relações não são muito diretas, tão óbvias quanto o cinema brasileiro costuma produzir. Minas Texas não é um filme metalingüístico tradicional em que você identifica o objeto em referência o tempo todo. É um jogo, muito lúdico e divertido. Mas ao mesmo tempo ele fala algumas coisas importantes para a história do cinema brasileiro, como se fosse um romance de formação.

Vera Barroso - Me deixa voltar pro meu tempo? Tem uma cena que eu adoro, com todos pintados de cabelo branco, a Maria Silvia, Nelson Dantas, Andrea Beltrão... É o Giant, em pessoa! Eu olhei e me lembrei da Elizabeth Taylor com aquelas mechas fingindo de grisalhas... Gente, eu não acredito! Todos com a mesma roupinha, velhinhos... E o diálogo? Eu acho que o Nelson Dantas está delicioso.

Hernani Heffner - Você atinge o tempo da serenidade e reata as relações, para de brigar e entende que a vida tem lá alguns momentos em que é briga mesmo, vamos ao enfrentamento! Mas tem outros em que isso já passou e fica sem sentido continuar brigando.

Vera Barroso - É, o filme exibe um lado ameno, pouco amargurado.

Geraldinho - Tem um frescor shakespeariano.

Hernani Heffner - Ele não é amargo, mas guarda certas pontas de desencanto.

 

Roteiro e Direção – Charles Stone

(heterônimo de Carlos Alberto Prates Correia)

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